segunda-feira, 24 de junho de 2013

Este artigo saiu, em 2010, num caderno especial de A Tribuna

O prazer e a importância da leitura e escrita
Por Israel Scardua de Aquino
POR QUE LER?
Ensinar a ler e a escrever é um dos desafios mais difíceis a que os professores nos dispomos num mundo dominado pelas mídias visuais. Quando digo professores de leitura e escrita não estou me referindo apenas aos alfabetizadores ou de Português. Todo professor comprometido ensina a ler e entender o que se lê. Não apenas leitura de palavras, mas a todas as formas de linguagem tais como a música, a pintura, os gráficos...
A leitura é essencial para aquisição da escrita. É sabido que quem mais lê, melhor escreve. Escrever bem não quer dizer sem erros gramaticais de concordância, regência, ortografia, pontuação e outros; é escrever com clareza, objetividade, é ser capaz de se comunicar bem.
A leitura hoje está mais acessível: livros, jornais, revistas, computadores e outras formas de comunicação permitem que tenhamos contato com o mundo das palavras, mas infelizmente não temos conseguido formar leitores em potencial. Isso é lamentável pois é na leitura que se encontra informação, sabedoria, autoconhecimento, memória e se desenvolvem pensamentos próprios. Contamos com bibliotecas públicas e projetos relevantes como A Tribuna na escola no intuito de formar leitores, mas há ainda escolas municipais, por exemplo, mesmo da capital, sem biblioteca.
A informação é necessária para desenvolver o senso crítico. Depois que conhecemos nossa realidade somos capazes de refletir e adequá-la de modo a buscar nossas realizações e nossa felicidade. A literatura desvenda a alma humana, tanto as narrativas, os textos líricos e os dramáticos aludem às diversos comportamentos e formas de ver a vida, o que nos proporciona sabedoria na hora de tomarmos atitudes e decisões. A identificação com personagens e com os eu-líricos permitem que o leitor conheça mais a si mesmo a partir de histórias e poemas. Os livros trazem toda a memória da história e da cultura da humanidade. A leitura dos diversos gêneros textuais, com tantos temas e infinitas possibilidades, é a principal responsável pela formação de opinião. Com a leitura adquire-se a capacidade de ter pensamentos próprios e disso depende uma democracia. O Brasil só será uma democracia de verdade quando os cidadãos tiverem acesso pleno à leitura.

POR QUE NÃO SE LÊ?
A televisão, o cinema, os videogames, os computadores e os escritores ruins destruíram a literatura.  As crianças estão cercadas por telas e não se sabe qual é o futuro da leitura num mundo dominado pela imagem. Segundo uma pesquisa do Instituto Ipsos, 57% das crianças e jovens brasileiros de 2 a 17 anos passam no mínimo três horas por dia diante da televisão, enquanto 43% não gastam nem um minuto por dia lendo livro; só fica atrás de Macedônia, Indonésia, Albânia e Peru. A leitura das crianças e dos jovens se resumiu à de Best Sellers traduzidos para o português com histórias de magia e vampiros. Quem se habitua a ler autores desse tipo literatura terá dificuldade de ler um texto com linguagem mais elaborada, mais da polissêmica, muito comum aos textos literários de qualidade.

O brasileiro não entende o que lê, porque lê pouco.  A Câmara Brasileira do Livro registra que os EUA lançam 11 livros a cada ano, o Brasil 2,5. O Sindicato Nacional dos Editores de Livros pesquisou por três meses a leitura no Brasil e concluiu que 30% dos brasileiros leram um livro somente naquele período, 14% não leram nenhum, 11% não tinha dinheiro pra comprar um livro e 39% usou a desculpa de que não tinha tempo para ler. O Programa Internacional de Avaliação de Alunos verificou a posição do Brasil em 32º lugar entre 41 países: jovens entre 15 e 16 anos não passaram em leitura, interpretação e assimilação de textos. Os dados mostram ainda que quanto maior a faixa etária do jovem, maior a taxa de analfabetismo. Entre os jovens de 15 a 17 anos, 1,7% são analfabetos - em 1998 o índice era de 8,2%. Entre os de 18 a 24 anos, 2,4% são analfabetos. Isso é preocupante. 68% dos jovens entre 18 e 24 anos não estudam (IBGE). Entre os 18 e 24 anos de idade, está a maior diferença. Trinta e dois por cento das mulheres brasileiras nessa faixa etária estudam. Entre os homens, a porcentagem cai para 28,9%. A contradição está entre a população analfabeta: as mulheres também são mais numerosas entre elas. Dos 14,5 milhões de analfabetos com mais de 10 anos de idade, 7.411.000 são mulheres. Entre 16 países em desenvolvimento o Brasil é o primeiro em repetência, com 26% Paraguai 8,4%. Só 32% chegam à faculdade nos demais 80%.

O QUE FAZER?
Quem pode mudar essa história? Primeiramente a família: ao ler para uma criança antes de ela dormir, ou sentada em seu colo, o pai ou a mãe ensinam a ler. E não há melhor professor que o exemplo, associado ao carinho e aconchego de quem a criança tem como modelo. Outra atitude bastante louvável é presentear a criança com livros e levá-las a uma biblioteca ou uma livraria num programa em família num dia de lazer. A criança associará a leitura a coisas boas como estar com a família ou fazer um passeio.


A escola também tem papel fundamental porque orienta a leitura dos gêneros textuais a que a família não tem acesso ou compreensão, e ensina a escrever. É preciso que o ensino da escrita seja de forma prazerosa, para tanto se defende a democratização do texto. A escola tem de considerar a leitura e a escrita como objeto de ensino. Quando se escreve para ser lido por um público considerável, a criança e o jovem escrevem com mais prazer e pensando no leitor. Isso dá sentido ao texto. E vale lembrar que quem não lê tem dificuldade em escrever.

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